O paradoxo francês de Expand em ExpandBlog

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O debate em torno dos benefícios do vinho para a saúde voltam à tona com a campanha do governo francês contra o consumo de álcool. Mas vinho não é só álcool.

Por Arnaldo Grizzo

2009 começou quente na França. Não, esta afirmação não tem nada a ver com o clima do país europeu. Este “calor” não afeta a qualidade da safra do ano, mas certamente deve causar impacto em toda a indústria vitivinícola francesa e, quiçá, mundial. Acontece que o governo do “abstêmio” presidente Nicolas Sarkozy resolveu ser implacável na campanha contra o consumo de bebidas alcoólicas, citando sua relação com o aumento do risco de câncer.

No fim do ano passado, o instituto francês contra o câncer (INCa), vinculado ao Ministério da Saúde, divulgou um relatório intitulado “Álcool e risco de câncer”. Em seguida, o presidente do INCa, Dominique Maraninchi, destilou duras frases contra a ingestão, mesmo que mínima, de qualquer tipo de bebida alcoólica. Baseado em um vasto – e bastante questionado – estudo que relaciona o aumento da probabilidade de uma pessoa desenvolver diversos tipos de câncer proporcionalmente ao seu consumo de álcool por dia (confira o debate em torno deste trabalho no artigo do Dr. Jairo Monson de Souza Filho, na página 26), o governo da França deu mais um forte golpe em seu setor vitivinícola ao desencorajar a ingestão de qualquer bebida contendo etanol.

Esta ação atinge diretamente a indústria do vinho no país, que emprega mais de 250 mil pessoas e representa cerca de 9,5 bilhões de euros para o PIB, mas que vem perdendo um pouco de fôlego nos últimos anos. Em 2005, os franceses deixaram o posto de maiores exportadores do mundo. Em 2007, passaram a não ser os maiores consumidores. Em 2008, por fim, foram destituídos do título de principais produtores. Postos ocupados pela Itália agora.

Os porquês da campanha antiálcool francesa

A verdade é que, desde 1960, o consumo de álcool na França vinha caindo em taxas constantes. Na década de 60, a média que uma pessoa bebia por ano era de 26 litros de etanol através das bebidas. Desse total, 20,6 era proveniente do vinho. Em 2005, esta média estava em 12,7 litros. No entanto, no ano seguinte, ela voltou a crescer e a taxa apareceu em 12,9 litros, sendo que 7,5 correspondiam aos fermentados de uva.

Esta reversão da tendência de queda seguramente é um fator preocupante para as autoridades francesas, pois sua população ainda é uma das que mais ingere bebidas alcoólicas no mundo e, para piorar, o principal aumento de consumo se deu entre a população jovem. Daí a preocupação das autoridades.

Contudo, sem muito discernimento, a campanha do governo francês contra o consumo de álcool – quando simplesmente não diferencia os tipos de bebida – acabou por ignorar milhares de pesquisas sobre os benefícios do vinho à saúde, incluindo a diminuição da incidência de alguns cânceres em pessoas que fazem uso moderado, que tratam a bebida como um alimento natural. Sendo assim, uma questão volta à tona: vinho faz bem ou faz mal?

Vinho: bem ou mal?

As propriedades desta bebida milenar para a saúde são decantadas e estudadas também há milênios. Só para citar um exemplo bíblico, São Paulo apóstolo, em sua carta a Timóteo, recomenda o vinho para o estômago e as indisposições. Mais recentemente, porém, descobriram-se os elementos que fazem do néctar báquico um líquido que pode ajudar a combater diversos males, além dos da alma.

São os polifenóis (poli = muitos; fenóis = ácido carbólico) presentes nas uvas, e consequentemente no vinho, que garantem benefícios para a saúde humana. Os famosos taninos, por exemplo, são polifenóis de características adstringentes – é o que causa a secura na boca. Contudo, os fermentados de uva possuem cerca de 200 tipos diferentes identificados destes compostos.

Polifenóis são produzidos naturalmente pelos vegetais e servem como armas de defesa das plantas. Presentes especialmente nas cascas e sementes das uvas, seu melhor solvente é o álcool. Atualmente, o polifenol mais citado no mundo do vinho tem sido o resveratrol (ou transresveratrol). Várias pesquisas acadêmicas demonstram que este composto possui ação de proteção contra diversos tipos de cânceres. Contudo, alguns estudos indicam que a concentração deste elemento nos vinhos não é considerável para explicar o chamado “Paradoxo Francês” (o porquê de os franceses possuírem menor risco de doenças cardiovasculares mesmo tendo uma dieta rica em gordura). Tanto que, recentemente, um médico australiano, Philip Norrie, diz ter inventado um fermentado com 100 vezes mais resveratrol do que os produtos convencionais.

Resveratrol, o polifenol da vez

O resveratrol é uma fitoalexina (proteína enzimática) produzida por diversas plantas quando sob ataque de fungos ou bactérias. Pesquisas revelam que este polifenol tem ação anti-inflamatória, anticancerígena, de diminuição dos níveis de açúcar do sangue, além de efeitos cardiovasculares benéficos. Os pesquisadores ainda buscam dados sobre seus efeitos contra o envelhecimento e doenças neurodegenerativas como Alzheimer.

Como os estudos são recentes, seus reais benefícios ainda estão sendo testados. Porém, ele não é o único polifenol do vinho. Proantocianidinas (cadeias de polímeros dos flavonóides – tipos de polifenóis) também estão presentes nas uvas vitis vinifera (usadas para produzir os vinhos finos). Este elemento -muito comum nas maçãs – possui forte ação antioxidante, 20 vezes mais potente que a vitamina C e 50 vezes mais que a vitamina E. Ele previne contra doenças cardiovasculares e diabetes.

Polímeros de proantocianidinas, como os taninos, por exemplo, também possuem efeitos benéficos à saúde (além dos efeitos no sabor do vinho) e são tidos como tendo propriedades antivirais, bactericidas, antioxidantes e de proteção vascular. Outro composto de grande poder contra oxidação é a catequina, tida ainda como fator que pode ajudar na redução da gordura corporal, do colesterol LDL (conhecido com “mau colesterol”) e da possibilidade de desenvolver alguns tipos de câncer.

Vinho e câncer, sim ou não?

Um dos pontos mais discutidos do relatório publicado pelo governo francês sobre os riscos de cancro relacionados à ingestão de álcool é a não diferenciação entre os tipos de bebida. E isso, no caso do vinho, parece ser bastante injusto, pois a porcentagem máxima varia em torno de 14% do volume, ou seja, o álcool é apenas mais um componente e não o único. Além disso, classificá-lo nestes termos e apontá-lo simplesmente como um risco à saúde e fator de aumento dos casos de câncer é ignorar milhares de pesquisas mundiais que vão no sentido contrário.

A cada dia mais cientistas buscam encontrar os elementos do vinho que através de estudos já mostraram eficácia na diminuição das taxas de surgimento, desenvolvimento e disseminação de todos os tipos de câncer. Há pesquisas que relatam claramente que o consumo moderado de vinho, devido à ação de seus polifenóis, diminui a incidência de cancro mesmo quando comparado com pessoas abstêmias. Isso tende a demonstrar que o néctar báquico tem, sim, propriedades benéficas e que o grande mal em relação ao câncer é, na verdade, a quantidade de ingestão de álcool (a relação etanol/ câncer é estrita, pois ele provoca mutações nos DNAs das células).

Álcool, vinho e coração: boa relação

As pesquisas relacionadas aos efeitos benéficos do consumo de quantidades moderadas de etanol (não somente o vinho) com as doenças cardiovasculares já mostraram que este é um elemento de diminuição do risco de morte devido especialmente à presença de flavonóides (polifenóis de baixa massa molecular).

O vinho pode ajudar a aumentar a quantidade de colesterol HDL (“bom colesterol”) e diminuir o LDL, dilatar vasos sanguíneos (facilitando o funcionamento do coração), assim como melhorar a elasticidade e resistência das paredes vasculares. Uma alta ingestão de álcool, contudo, pode aumentar a pressão arterial e a chance de ocorrer um acidente vascular cerebral (AVC). No entanto, o consumo prudente de vinho tende a diminuir a possibilidade de incidência de AVCs, infartos do miocárdio, gangrenas etc.

Onde mais o vinho é bem visto?

A relação do vinho com a proteção cardiovascular está realmente bem fundamentada na literatura científica, que agora parte para seus efeitos em relação ao câncer. Mas os estudos sobre os benefícios não estão focados somente nestas duas áreas.

O efeito antioxidante dos polifenóis está diretamente ligado à diminuição da ação danosa dos Radicais Livres (moléculas instáveis formadas por processos metabólicos do oxigênio em nosso organismo e que podem causar processos degenerativos), pois eles neutralizam suas atividades. Assim, entre outras coisas, eles servem para retardar o envelhecimento.

E este efeito “rejuvenescedor” pode ser sentido na pele, porque alguns dos elementos das uvas agem diretamente sobre enzimas que atacam o colágeno e a elastina (substâncias que promovem elasticidade e firmeza). Tanto que tratamentos de belezas sugerem até a imersão das pessoas em vinho, já que os polifenóis podem ser rapidamente absorvidos por via tópica.

Além disso, o fermentado de uva está relacionado à diminuição de infecções, pois alguns de seus componentes têm efeito bactericida e antiviral. Estudos chegaram a evidenciar que a ingestão comedida diminui a chance de desenvolver resfriados, por exemplo, se comparado com abstêmios. Outra ação interessante dos polifenóis do vinho é a promoção do aumento da sensibilidade das células à insulina, o que faz com que o aproveitamento dos açucares seja melhor e não ocorra acúmulo no organismo. Assim, diabéticos (que possuem a doença controlada) podem se beneficiar do consumo prudente junto às refeições (sempre com supervisão médica). E, ainda nessa linha, seus efeitos estão relacionados à destruição de células de gordura e, consequentemente, ao emagrecimento.

Os benefícios desta bebida milenar não cessam nestes campos. O vinho ainda pode atuar ajudando no processo digestivo e na prevenção de doenças neurodegenerativas como Alzheimer. Pesquisas recentes evidenciam que os polifenóis podem agir não somente na prevenção deste terrível mal, mas também como tratamento.

Paradoxo francês?

Há anos um termo é recorrente quando se trata do papel protetor de algumas dietas, especialmente a francesa. É o “Paradoxo Francês”. O termo – criado por um cientista de Bordeaux no começo da década de 1990 – designa a estranha relação entre os hábitos alimentares (com ingestão de muita gordura animal saturada) e de vida (como tabagismo) e a relativa baixa mortalidade dos franceses por doenças cardiovasculares.

No fim, estudos comprovaram que, apesar destes costumes maléficos, outros fatores ligados à alimentação protegiam a população destes problemas. E, um dos elementos encontrados como preventivo ao desenvolvimento das doenças do coração foi o consumo regular e moderado de vinho. Mais adiante, esta fórmula de “dieta ideal” (que é composta de outros fatores além do vinho, como ingestão predominante de gordura vegetal, carne de peixe, pouco açúcar etc) foi chamada de dieta do Mediterrâneo, que atualmente é rotulada como uma das mais indicadas para uma longa vida.

Vinho e álcool: moderação é o segredo

Por fim, os malefícios proporcionados pelo consumo de álcool são notórios. Querendo ou não, vinho é uma bebida alcoólica e, por isso, deve ter uma ingestão sempre moderada para que seus efeitos benéficos sejam potencializados e a influência deletéria do etanol seja minimizada.

Obviamente que cada ser humano possui metabolismos diferentes e processam o vinho de maneiras distintas em seu organismo. Porém, um consumo moderado, segundo médicos (que têm no vinho sua bebida predileta), pode ser de um a três taças por dia, preferencialmente junto com a comida.

Então, diante de tantas evidências de que a ingestão do néctar de Baco pode ser bem-vinda em diversas situações, antes de o governo francês impor o slogan “não beba”, talvez fosse melhor pregar o clássico: “beba com moderação”.

ALGUNS BENEFÍCIOS DO CONSUMO MODERADO DE VINHO PARA A SAÚDE

Diminui a incidência de doenças coronárias – combate o colesterol LDL (que obstrui as artérias), reduz risco de infarto do miocárdio e AVCs.
Ação antioxidante – retarda o envelhecimento dos órgãos, inclusive da pele.
Protege contra demência – estudos relacionam o consumo prudente com a diminuição da incidência do mal de Alzheimer.
Ação antiviral e bactericida – aumenta a resistência contra infecções Diminui a incidência de problemas gastrointestinais – protege contra úlceras, cálculos biliares, auxilia na digestão.
Menor chance de cálculos renais – devido à ação diurética.
Aumento da sensibilidade à insulina – pode ajudar na diabetes tipo 2.
Melhora da densidade óssea – reduz a chance de osteoporose.
Destrói células de gordura – pode servir como parte de uma dieta de emagrecimento.
Reduz a incidência de câncer – estudos mostram efeitos preventivos e até mesmo inibidores durante o tratamento de. diversos tipos como de próstata, pulmão, ovário, do aparelho digestivo e outros tantos.

Fonte: Revista Adega Uol
Editoria: Vinho e Saúde

Artigo original: O paradoxo francês de Expand publicado [dia January 17, 2012 at 07:52PM] em .

Republicado por Eno Gastronomo

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