Esta coisa morta que é o vinho de Alex em vinobits

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de Alex publicado em vinobits

robert parker winebuzz hk11 Esta coisa morta que é o vinho

Robert Parker empurrando seu gosto goela abaixo do mundo

Dias atrás fui apresentado a um comerciante de vinhos em São Paulo. Perguntei a ele o que tinha para indicar, visto que muito dos rótulos ofertados eram de todo desconhecidos para mim.

O comerciante, sem demora, me mostrou os vinhos bem pontuados. “Este aqui recebeu 90 e tantos pontos do Parker. Este outro 90 e poucos do WineSpectator”. E assim foi.

A certa altura, e continuando a não entender o que ele queria dizer, lhe perguntei: mas este vinho tão bem pontuado pelo Parker, é de fato saboroso, rico, característico, complexo, pleno e vivo?

O comerciante ficou perplexo com minha pergunta, como se questionar a pontuação constituisse uma heresia!

Pois é uma pena, diria mesmo lastimável, o tratamento concedido ao vinho por seus consumidores, comerciantes, críticos, apreciadores e até mesmo produtores. Tratam-no de modo mecanicista e esquemático, como coisa morta, acabada e metafísica, desconstruindo-o em partes sem qualquer relação aparente entre sí ou mesmo com o todo.

Expressões como “na taça”, “no olfato”, “no palato”, fragmentam o processo de experimentação em partes estanques, coisificando seus agentes. De um lado o vinho coisificado em múmia, em fóssil, sem expressão real e dinâmica, sem vida, podendo ser fatiado a bel prazer e sem compromisso. De outro o experimentador coisificado em máquina-sensória de três sentidos e nenhuma alma, tão sem vida quanto o vinho morto que disseca e diz apreciar. Prazer mórbido, eu diria.

Esta mumificação do vinho não é de hoje. Está consagrada nos manuais de degustação através da fragmentação da apreciação em percepção visual, sensações olfativas, percepções gustativas e sensações táteis. Discute-se as técnicas “imprescindíveis” para uma análise “objetiva” do vinho, divididas por sua vez em análise quantitativa, de um lado, e análise qualitativa, de outro, contribuindo ainda mais para aumentar a framentação do vinho. Todavia tal fragmentação nunca foi muito além de um guia de orientação na iniciação dos incautos iniciantes ao mundo do vinho.

Foi somente nos tempos modernos que, com a banalização da apreciação provocada sobretudo por críticos “profissionais” como Robert Parker, chegamos ao  reino da subjetividade travestida de ares de objetividade e precisão. Aqui o rigor anterior resume-se a adotar um jargão mais ou menos estabelecido. Destila-se então uma lista de adjetivos, todos particulares ao observador e ao seu jargão. Baunilha, chocolate, aniz, especiarias, couro, xixi de rato, petróleo e tantos outros “aromas” e “sabores” são utilizadas na dissecação e classificação que, de acordo com o profissional, garantem expressar a completude da bebida. Como veremos mais adiante não passa de expressão subjetiva, intrínseca ao experimentador mas não ao vinho, despossuída de qualquer sentido social e prático, mostrando-se mesmo incapaz de efetivamente dar conta da experimentação, do vinho, e servindo invariavelmente para conferir um destaque narcisista e esnobe ao experimentador, em detrimento ao vinho e de seu processo de experimentação. Flagrante contradição com tudo aquilo a que estes “profissionais” se propõem a fazer.

Mas a dissecação não se encerra nos adjetivos. Vai além, procurando alcançar o panteão de ciência exata e matematicamente precisa. Os mesmos esnobes que antes desfilaram uma saraivada de adjetivos inúteis e inexpressivos, que promoviam apenas a sí mesmos em detrimento ao vinho e ao público a quem se dirigem, agora abrem mão de seu narcisismo extremado para “dialéticamente” negarem-se a sí mesmos (e não acrescento negarem ao vinho, pois que este já está negado desde o início).

Negam-se artificialmente ao impor uma escala de pontos, uma régua que promete medir de maneira exata, precisa e absoluta de todo e qualquer vinho experimentado. Os medianos fixam-se nos 80 e poucos pontos. Os excelentes vão para 90 ou mais pontos. E os demais, bem os demais não recebem ponto algum pois que não merecem figurar em tão nobre escala.

Na base da escala de pontos precisa e absoluta está a idéia de que os sentidos são precisos e absolutos. Tal como o mito do ouvido absoluto, agora imagina-se um olfato absoluto (Robert Parker segurou o próprio olfato por 1 milhão de dólares), paladar absoluto e tato absoluto. E pior, ignora toda e qualquer diferença pessoal e elimina-se completamente a interpretação que fazemos de nossos sentidos para reafirmar um valor absoluto, acima do bem e do mal. Vinho para os deuses, talvez. Não para os homens pois que estes, somente por abestamento ou oportunismo para julgarem ter sentidos tão apurados e precisos.

Não quero dizer que os sentidos sejam meramente subjetivos e totalmente relativos. São objetivos pois que do contrário não haveria sensação, um fenômeno físico não imaginário – exceto talvez para os adeptos do filósofo George  Berkeley. E se a sensação é universal, o gosto não é. De absoluto apresenta apenas o juizo condenatório do experimentador, não sendo a toa que um dos maiores narcisistas do vinho e detentor da mais popular escala de pontos, Robert Parker Jr., se auto-denomine “advogado do vinho”, agindo porém na prática como juiz e carrasco: condena alguns vinhos ao esquecimento enquanto outros eleva a glória instantânea. E isto apenas enquanto tais vinhos se adequarem ao gosto individual do “profissional”. Caberia pois perguntar se trata-se mesmo de advogado do vinho ou do diabo.

Este tratamento todo, por mais refinado que se apresente, ignora a vivacidade e dinâmicidade que é o vinho. Produto em constante transformação, que se inicia no plantio, passa pela manufatura, assim como envelhecimento no barril e posteriormente na garrafa, para então, ao ser aberto, encontrar sua expressão máxima na degustação.

Ignora a vivacidade e dinamicidade da produção do vinho, do produtor, de sua arte de preparo, das facilidades e das dificuldades encontradas na colheita, no solo, no clima, nas técnicas de preparo, nas safras e na economia.

Ignora que o homem que o degusta, que o experimenta, é tão dinâmico e vivo quanto o vinho experimentado. Um ser com sentidos variáveis, não mecânicos, nem tampouco precisos, que se aprimora apenas com o tempo, com seu próprio envelhecimento e sobretudo no processo da experimentação.

Ignora que os sentidos primários de que o homem lança mão para apreciar o vinho – olfato, paladar e tato – somente podem ser assim fragmentados quando considerados de um ponto de vista abstrato. Pois que para além da nossa vã filosofia, já tratando da realidade concreta, nem um nem outro sentido são divisíveis. Isto é especialmente comprovado pelo famoso teste experimental que consiste em provar um vinho enquanto se está gripado. A unidade insiste em se fazer presente. E ignoram que não são apenas estes três sentidos primários que estão em jogo.

Ignora que o sentido do homem é um sentido histórico, social, para além do indivíduo que o aprecia. E como histórico e social é ainda tão dinâmico e vivo quanto tudo o mais a que já me referi até então, não possuindo absolutamente, para bem deixar claro, qualquer valor absoluto.

E por fim e não sem menor importância, ignora o prazer de simplesmente beber.

Artigo original: Esta coisa morta que é o vinho de Alex publicado [dia February 12, 2011 at 12:52AM] em .

Republicado por Eno Gastronomo

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