Jancis Robinson – Importação brasileira do vinho ameaçada – Matéria completa com tradução. de Camila H. Coletti em Vinho e Delicias

Primeira fotogarfia publicada no artigo Jancis Robinson - Importação brasileira do vinho ameaçada - Matéria completa com tradução.Jancis Robinson – Importação brasileira do vinho ameaçada – Matéria completa com tradução.
de Camila H. Coletti publicado em Vinho e Delicias

 Foi publicada no dia 23 passado a matéria de Paul Medder no respeitadíssimo site inglês jancisrobinson.com, da Master of Wine mais conhecida e conceituada do mundo: Jancis Robinson

Leiam na integra abaixo agora, devidamente TRADUZIDA  para o português por Marcello Borges e  disponibilizada via facebook por Arthur P. de Azevedo, diretor da ABS-SP ou no original em inglês, na sequência.
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Importação brasileira de vinho ameaçada
23 de março de 2012 por Paul Medder

Conflitos entre os maiores produtores brasileiros de vinhos e importadores de vinhos chegaram a um impasse, como conta Paul Medder, o homem da Wine Intelligence no Brasil.

Apesar das recentes manchetes positivas nos jornais mostrando que o Brasil tornou-se a sexta maior economia do mundo, e relatórios regulares mostrando a importância dos BRICs na expansão do mercado global de vinhos, os produtores estrangeiros de vinhos que procuram exportar para o Brasil enfrentam alguns meses de incertezas.

Na quinta-feira, 15 de março, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) abriu uma consulta sobre a possibilidade de introduzir medidas de “salvaguarda” para proteger a produção nacional de vinhos das ondas de vinhos importados que “atacam o mercado brasileiro” (Diário Oficial da União, Circular n° 9/2012, 15 de março de 2012, pp. 76-79).

As “salvaguardas” incluem diversas medidas possíveis, todas com efeito prejudicial sobre o mercado de vinhos importados:

• Elevar a já alta tarifa sobre os vinhos importados, passando-a de 27% para 55% – uma proposta assustadora, mas possivelmente ineficaz, uma vez que as duas maiores fontes de vinhos importados, Argentina e Chile, não seriam afetadas devido à sua participação na comunidade econômica do Mercosul;
• Introduzir cotas diferentes para cada país (mais uma vez, excluindo produtores dos países filiados ao Mercosul);
• Impor um preço mínimo para vinhos importados;
• Tornar obrigatório o rótulo em português em todas as garrafas. Com a exceção de Portugal, na prática isso implica em criar um rótulo exclusivo para o mercado brasileiro (algo que só é viável ou compensador para grandes produtores estrangeiros);
• Tornar ilegal o uso de expressões como “orgânico” ou “biodinâmico” nos rótulos dos vinhos, mesmo que essas expressões tenham recebido o certificado de alguma organização internacional com poderes para tanto, a menos que tenham sido certificados por um organismo brasileiro.

A circular foi o fruto do lobby formado pelo IBRAVIN (Instituto Brasileiro do Vinho), a Uvibra (União Brasileira de Vitivinicultores), a Federação de Cooperativas de Vinho (Fecovinho) e o Sindicato da Indústria do Vinho do Rio Grande do Sul (Sindivinho), em nome de grandes produtores e cooperativas do Brasil, como Miolo, Salton,* Aurora, Aliança, Don Giovanni, Garibaldi, Casa Valduga e Dal Pizzol.

As alegações na circular de que os vinhos importados “estão causando sérios danos à indústria nacional de vinhos” baseiam-se na análise de vendas e em dados de produção cobrindo o período entre janeiro de 2006 e dezembro de 2010. Contudo, como as fontes dos dados usadas na circular não foram mencionadas, não consegui confirmar as conclusões apresentadas, nem fornecer análises comparativas.

Embora alguns dos argumentos feitos com base nesses dados possam ser verídicos (de fato, o mercado de vinhos importados cresceu significativamente nos últimos cinco anos), o escopo subjetivo da análise não leva em conta nenhum efeito positivo que o maior interesse em vinhos importados possa estar tendo sobre o consumo de vinhos mestiçosos de qualidade, ou a ocasional influência salutar que a concorrência pode proporcionar. O mundo dos vinhos está repleto de exemplos onde a produção doméstica floresce mesmo em face de importados mais fortes. Na Nova Zelândia, por exemplo, o notável influxo de vinhos tintos australianos nos últimos 30 anos não impediu a Nova Zelândia de se tornar uma fonte de renomados Pinot Noirs. Tampouco a força de Champagne representou uma barreira intransponível para os produtores ingleses de vinho espumante.

A petição aplica-se apenas contra vinhos tranquilos feitos de uvas viníferas (ela não leva em conta a explosão de consumo de vinhos espumantes domésticos nos últimos cinco anos). Ela compara vinhos domésticos lado a lado com importados, afirmando que são “concorrentes similares ou diretos”. Mais uma vez, as conclusões baseiam-se numa interpretação estreita, usando apenas definições técnicas como “vinhos feitos de uvas fermentadas, recém prensadas, que podem ser maturadas em barris ou envelhecidas em garrafas”. Embora isso seja correto no nível mais básico, ainda estou para encontrar um Pinot Noir brasileiro que tenha o sabor, ainda que remotamente, de um Gevrey-Chambertin, um Riesling brasileiro comparável aos do Mosel ou Reno, ou um Sauvignon Blanc brasileiro com o toque cítrico de um bom exemplar de Marlborough. Ela também não leva em conta a variada gama de vinhos que não são produzidos no Brasil, sejam Nebbiolo, Mourvèdre ou Zinfandel.

Além disso, a circular alega que o grande aumento de vinhos importados que entraram no Brasil em 2010 foi motivado pela crise financeira internacional, com produtores de todos os lados do mundo tentando redirecionar suas vendas ao Brasil quando outros mercados tradicionais entraram em crise. Embora isso possa ser parcialmente correto, a circular não menciona que muitos importadores brasileiros também estavam se apressando em importar vinhos para o Brasil para evitar um selo fiscal que seria introduzido em breve, estando previsto para janeiro de 2011. Esse selo, que entrou em vigor tardiamente, em 2012, foi o fruto de lobbies anteriores desses mesmos grandes produtores e cooperativas, prova de que têm um governo receptivo a seus queixumes.

Um dos motivos para a introdução de tais “salvaguardas” discutidas na seção 10 da circular é dar tempo e receita para uma “reestruturação competitiva” da produção nacional de vinhos. Deixando claro seu objetivo, os grandes produtores e cooperativas querem afastar a produção das tradicionais áreas de vinhedos para novas áreas, relativamente planas, que permitirão a intensificação dos plantios, a possibilidade de otimizar máquinas, de instalar sistemas de irrigação e telas antigeadas, levando a uma redução global nos custos de produção de 35%. A notável ausência da frase “melhorar a qualidade” em qualquer ponto dessa seção da circular é uma preocupação. Não só preocupa os consumidores brasileiros que desfrutam hoje de uma gama muito maior de vinhos importados do que no passado, mas os produtores brasileiros menores, orientados para a qualidade, que estão tentando superar anos de estigma associados com os vinhos domésticos baratos, feitos com uvas não viníferas, que deram má reputação à expressão “vinho nacional”.

Esses produtores, orientados para a qualidade, podem merecer o apoio de seu governo, mas este não precisa vir na forma de medidas protecionistas punitivas como as propostas. O ICMS sobre todos os vinhos, independentemente de sua origem, atualmente é de 25% em alguns estados do Brasil, e uma isenção tributária para esses produtores poderia ser uma alternativa mais adequada.

Como era de se esperar, o anúncio da consulta causou uma forte reação na comunidade brasileira de importadores, varejistas e enófilos. Ciro de Campos Lilla, presidente das grandes importadoras Mistral e Vinci, afirma que a adoção dessas medidas significaria uma “volta à situação de 20 anos atrás, com menos opções para os consumidores, muitas das quais de qualidade questionável. Será a perda de todo o esforço, todo o trabalho e toda a evolução obtida nesse período”.

Muitos têm sugerido o boicote aos vinhos produzidos pelos responsáveis pela circular. Roberta Sudbrack, uma das mais famosas chefs do Brasil, disse em sua página do Facebook que tirou a Casa Valduga e a Dal Pizzol da carta de vinhos de seu restaurante carioca, que leva seu nome, em apoio aos protestos.

Para o desenvolvimento futuro do mercado brasileiro de vinhos, só se pode esperar que seja aplicada uma pressão suficiente ao governo, tanto dentro do Brasil como de produtores e apreciadores de vinhos do Exterior, para afastar essas medidas protecionistas míopes. As partes interessadas terão até meados de abril para apresentar argumentos alternativos (em português) ao MDIC.


*Aparentemente, a Salton acaba de se retirar da petição em resposta aos protestos. – JR
Brazil’s wine imports threatened
23 Mar 2012 by Paul Medder
Conflicts between Brazil’s largest wine producers and wine importers have come to a head, as Paul Medder, Wine Intelligence‘s man in Brazil, reports.
Despite the positive headlines recently about Brazil becoming the sixth largest economy in the world and regular reports noting the importance of the BRICs in the expansion of the global wine market, foreign wine producers seeking to export to Brazil market face an uncertain few months.
Last Thursday 15 March the Brazilian Ministry for Development Industry and Trade (MDIC) publicly opened a consultation about the possibility of introducing ‘safeguarding’ measures to protect national wine production from the waves of imported wine ‘attacking the Brazilian market’ (Diário Oficial da União, Circular n° 9/2012, 15 março 2012, pp76-79).
The ‘safeguards’ include a number of possible measures, all of which would have a detrimental effect on the market for imported wines:
·         Raising the already high tariff on imported wines from 27% to 55% – a frightening, but possibly rather toothless proposition, given that the two biggest sources of imported wine, Argentina and Chile, would not be affected due to their membership or associate membership of the MERCOSUR economic community;
·         Introducing country-by-country quotas (again excluding producers from MERCOSUR affiliated countries);
·         Imposing a minimum price on imported wines;
·         Making it compulsory to have a front-label in Portuguese on all bottles. With the exception of producers from Portugal, this effectively implies creating a label exclusively for the Brazilian market (something only feasible or worthwhile for larger foreign producers);
·         Making it illegal to use such terms as ‘organic’ or ‘biodynamic’ on wine labels, even if these terms have been certified by an accredited international organisation, unless they have been certified by a Brazilian agency.
The circular has been lobbied by the Brazilian Wine Institute (IBRAVIN), the Brazilian Union of Vitiviniculturists (Uvibra), the Federation of Wine Cooperatives (Fecovinho) and the Wine Industry Syndicate of Rio Grande do Sul (Sindivinho) on behalf of large Brazilian producers and cooperatives such as Miolo, Salton*, Aurora, Aliança, Don Giovanni, Garibaldi, Casa Valduga and Dal Pizzol.
The claims in the circular that imported wines ‘are causing serious damage to the national wine industry’ are based on analyses of sales and production data covering the period January 2006 to December 2010. However, as the sources of data used in the circular are not stated, I am unable to verify the conclusions drawn or provide comparable analyses.
While some of the arguments made using this data may be factually true (the market for imported wines has indeed increased significantly in the last five years), the blinkered scope of the analysis does not take into consideration any positive knock-on effects that increased interest in imported wines may be having on the consumption of quality domestic wines, or the sometimes healthy influence that competition can provide. The wine world is full of examples where domestic production flourishes in the face of stronger imports. In New Zealand for example, the sizable influx of Australian red wines over the last 30 years has not prevented New Zealand from becoming a source of renowned Pinot Noirs. Nor has the strength of Champagne proved an insurmountable barrier for producers of English sparkling wine.
The petition is applied only against vinifera-based still wines (it does not consider the boom in consumption for domestic sparkling wines over the past five years). It compares domestic wines alongside imports, stating that they are ‘similar or directly concurrent’. Once again, the conclusions are built upon a narrow interpretation, using only technical definitions such as ‘wines made from fermented, freshly pressed grapes, which may be matured in barrels or aged in bottles’. While this may be correct at the most basic level, I am yet to come across a Brazilian Pinot Noir that tastes remotely like a Gevrey-Chambertin, a Brazilian Riesling comparable to those of the Mosel or Rheingau, or a Brazilian Sauvignon Blanc with the zest of a good example from Marlborough. It also makes no consideration of the diverse array of wines not produced in Brazil, be they Nebbiolo, Mourvèdre or Zinfandel.
Furthermore, the circular claims that the large increase in imports entering Brazil in the year ending 2010 was driven by the international financial crisis, with producers in all quarters of the globe seeking to re-direct their sales to Brazil as other traditional markets fell into crisis. While this may be partly true, the circular does not mention that many Brazilian importers were also rushing to import wines into Brazil to head off a soon-to-be-introduced fiscal seal, earmarked for launch in January 2011. This seal, which came into effect belatedly early in 2012, was the product of earlier lobbying from these same large producers and cooperatives, proof that they have a government receptive to their complaints.
One of the motives for introducing such ‘safeguards’ discussed in section 10 of the circular is to allow time and revenue for a ‘competitive restructuring’ of national wine production. Making their objective clear, the large producers and cooperatives wish to push production from traditional vineyard areas into new, relatively flat areas which will allow for the intensification of plantings, the possibility of optimising machinery, installing irrigation systems and anti-hail screens, leading to an overall reduction in production costs of 35%. The notable absence of the phrase ‘improve quality’ anywhere in this section of the circular is a concern. It is not only a worry for Brazilian consumers who enjoy a greater range of imported wines today than in the past, but also for the smaller, quality-driven Brazilian producers who are trying to overcome years of stigma associated with cheap non-vinifera domestic wines which gave ‘vinho nacional’ a bad name.
These quality-oriented producers may deserve the support of their government, but this need not be through the punitive protectionist measures such as those proposed. Value-added tax (ICMS) on all wines, regardless of their origin, is currently levied at 25% in some states of Brazil, and a tax break for these producers would be a more suitable alternative.
Predictably, the announcement of the consultation has had a strong response among Brazil’s community of importers, retailers and oenophiles. Ciro de Campos Lilla, President of leading importers Mistral and Vinci, claims that the adoption of such measures, ‘would return Brazil to a market seen 20 years ago with fewer options for consumers, many of which are of questionable quality. We will lose all of the effort, work and improvement obtained in the interim’.
Many have called for a boycott of wines produced by those responsible for the circular. Roberta Sudbrack, one of Brazil’s most renowned chefs, claimed on her Facebook page that she has taken Casa Valduga and Dal Pizzol off the wine list at her eponymously-named restaurant in Rio de Janeiro in support of the protests.
For the future development of the Brazilian wine market, one can only hope that sufficient pressure is applied to the government, both from within Brazil and from concerned producers and wine lovers abroad, to head off such short-sighted protectionist measures. Interested parties have until mid-April to present alternative arguments (in Portuguese) to the MDIC. 

*Apparently Salton has just withdrawn from these demands in response to the outcry – JR

Artigo original: Jancis Robinson – Importação brasileira do vinho ameaçada – Matéria completa com tradução. de Camila H. Coletti publicado [dia March 25, 2012 at 01:26AM] em .

Republicado por Eno Gastronomo

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