O vinho amargo de Michel Houellebecq de Viviana de Oliveira em Vintologias

Primeira fotogarfia publicada no artigo O vinho amargo de Michel HouellebecqO vinho amargo de Michel Houellebecq
de Viviana de Oliveira publicado em Vintologias


Nada como a ironia de Michel Houellebecq. Aliás, nada como o humor francês, mais sutil e realístico do que o inglês, e menos grosso e previsível do que o americano. Os franceses ganham quando o assunto é literatura e, bem diria, vinho. Nem Sideways dá conta. Eis alguns goles literários inesperados que encontrei durante a leitura do seu mais novo romance, O mapa e o território. E, a minha conclusão é: ler Houellebecq nos deixa mais sóbrios e exigentes, em todos os aspectos.

Não deveria ter bebido Gewurztraminer junto com as ostras, compreendera tão logo fizera o pedido, vinho branco sempre embaralhava suas ideias. (p. 18)
Não raro ouvimos dizer que os russos promoveram a grande revolução que lhes permitiu se livrarem do comunismo com a única finalidade de consumir McDonald’s e filmes do Tom Cruise; isso não deixa de ser verdade, mas, numa minoria deles, coexistia o desejo de degustar um Poully-Fuissé ou visitar a Sainte-Chapelle. Por seu nível de estudos e de cultura geral, Olga pertencia a essa elite. (p. 63)
Olga inalou demoradamente, deliciada, o fumet do conhaque, antes de molhar os lábios no néctar; adaptava-se magnificamente à França, difícil dizer que passara a infância num conjunto habitacional na periferia de Moscou. (p. 76)
“Trouxe uma garrafa de vinho. Uma boa garrafa…!” Exclamou Jed, com um entusiasmo um tanto artificial, um pouco como oferecemos balas às crianças, enquanto a retirava de sua bolsa de viagem. Era um Château Ausone 1986, que em todo caso, custara-lhe 400 euros: um dúzia de voos Paris-Shannon pela Ryanair.
“Uma garrafa só?” Perguntou-lhe o autor de Em busca da felicidade, espichando o pescoço para o rótulo. Então, sem uma palavra, deu-lhe as costas, após ter se apossado da garrafa; Jed interpretou a atitude como um convite. (p.140)
Estendeu um saca-rolhas a Jed e, tão logo a garrafa foi aberta, esvaziou uma primeira taça de um trago, sem inalar o bouquet do vinho, sem sequer entregar-se a um simulacro de degustação. (p. 155)
“Aceita uma taça de vinho?” Com um gesto largo, ele abriu um armário, revelando umas quarenta garrafas.
“Argentina ou Chile?”
“Chile, para variar.”  (p.187)

Artigo original: O vinho amargo de Michel Houellebecq de Viviana de Oliveira publicado [dia July 27, 2012 at 05:04AM] em .

Republicado por Eno Gastronomo

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