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Enviado por Bruno Agostini

31.07.2012

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18h02m

O samba do vinho doido: vinícolas apostam em rótulos irreverentes

 

                                                                                                                                                                                                       Um dos vinhos das Bodegas Y Viñedos Neo, da Espanha, foi batizado de Crazy Tempranillo e apresenta um rótulo chamativo, com desenhos coloridos de perfil moderno. De doido mesmo, este rosado gostoso e frutado não tem nada. É apenas um emblema de uma seleção de vinhos com nomes malucos que cada vez mais ganha destaque, funcionando como ferramenta de marketing para chamar a atenção do consumidor, que encontra no mercado algumas dezenas de milhares de rótulos diferentes. A portuguesa Filipa Pato resolveu assumir de vez o seu apreço por essa tendência e, quando foi abrir a sua vinícola, não pensou duas vezes na hora de dar o nome: Vinhos Doidos.

— Hoje, há vinhos demais disponíveis, e claro que essa é uma forma de chamar a atenção, mas ao mesmo tempo também diz muito a respeito de nós. Nossa proposta é fazer vinhos irreverentes, autorais, criativos, como o 3B, que é feito na Bairrada, com as uvas Bical e Baga — diz a enóloga, que coleciona nomes curiosos em suas garrafas, como Bossa e Nossa, Ensaios, Lokal e FLP. — Significa Frente pela Libertação de Portugal, porque não deixa de ter um caráter revolucionário.

Portugal é um território fértil para essa nomenclatura. Primeiro, porque uma nova geração de enólogos mostra entusiasmo por batizar vinhos assim: Poeira é um dos melhores do país, enquanto Dirk van der Niepoort, um dos enólogos mais respeitados de Portugal, batiza toda a sua linha de vinhos do Douro com nomes diferentes, como Batuta, Charme, Bioma e Robustus.

Mas nem sempre um nome, para nós engraçado, é fruto de marketing: muitas vezes é só pela diferença linguística que há entre o idioma falado no Brasil e o de lá. O que poderia ser uma Pêra-Manca, expressão que batiza um dos ícones da enologia portuguesa? E o Bastardo, que não se trata de qualquer filho gerado fora do casamento, ao menos na forma literal, mas significa apenas o nome de uma casta de uvas, com a qual, obviamente, é feito o vinho em questão: na verdade, os vinhos, porque apenas no mercado brasileiro encontram-se pelo menos dois rótulos batizados assim, um tinto, feito pela vinícola Conceito, e um rosado, fruto da Wine With Spirits, duas dessas bodegas que assumem a vocação para fazer rótulos com esse perfil. Vinha do Putto seria apenas o vinhedo da criança. Também achamos graça de nomes que ganham apelo, digamos, sexual, como o delicioso Monte dos Cabaços, e o não menos agradável Quinta do Pinto.

— Certa vez, uma família, de sobrenome Pinto, comprou uma caixa deste vinho, acharam a maior graça — conta Ana Luisa Bernacchi Santos, sócia da Asa Gourmet, importadora que traz este vinho para o Brasil.

Não falta criatividade na hora de escolher o nome dos vinhos. Há interjeições, como o (Oops) — sim, entre parênteses —, nome de uma vinícola chilena. E existem até onomatopeias seguidas de ponto de exclamação, como o explosivo Boom Boom!, um potente tinto americano do estado de Washington. Não faltam sequer linhas de vinhos que parecem seguir recomendações cabalísticas, como as garrafas da Winery Arts, da Espanha, que podem ser encontradas na Confraria Carioca, todas baseadas no número 3: Ses al Reves, Tres al Cuadrado, Exclusive Number Nine.

— Quando o vinho tem um nome fofo e custa menos de US$ 10, eu compro. Gosto de experimentar vinhos novos, não sou fiel a uma uva em especial. Nem sou esnobe, no sentido de que vinho tem que ser levado a sério. Acho que essa ideia de um vinho divertido e despretensioso é a cara da Califórnia. Tem uma marca chamada Middle Sisters que tem uns rótulos fofíssimos. Outro se chama Bitch, e eu comprei para dar de presente para uma amiga — diz a brasileira Natália Woolley, de 27 anos, que vive em Los Angeles.
Nesse criativo exercício de imaginação encontramos nomes que fazem autoirreverência, como o português Ilógico e o mais famoso entre todos, o Vin de Merde, criado por um vinicultor da França, em resposta às críticas ao nível médio do que é produzido na região do Languedoc, no Sul do país. Dizem que é um belíssimo vinho. Mas não foi a qualidade exatamente, mas sim o nome, que deu fama mundial a ele. Bela jogada de marketing. Da mesma região, o Arrogant Frog também demonstra toda a irreverência de algumas vinícolas locais.

Além do nome, os desenhos que aparecem nos rótulos também fazem parte dessa estratégia de promoção. Um dos mais divertidos é o sul-africano The Goatfather, que faz uma alusão ao Poderoso Chefão (“The Godfather”, no original em inglês). Não só o nome é impagável, mas também o desenho de um carneiro chifrudo, de smoking, que aparece no rótulo. Na mesma África do Sul, a Goats do Roam (brincadeira com a região francesa de Côtes-du-Rhône) é uma das vinícolas que incorporam essa irreverência toda. Um dos destaques da casa é o Goat-Roti, mais uma “homenagem”, dessa vez à denominação de origem controlada Côte-Rôtie, famosa pelo seu vinho denso e profundo, corte de Shiraz (uva dominante) com um toque da branca Viognier, do mesmo modo que o exemplar africano. O rótulo imita o padrão gráfico vigente na A.O.C. francesa. A lista é imensa e passeia por nomes como Fat Bastard e o Cat’s Pee on a Gooseberry Bush, que significa algo como “Xixi de gato em um arbusto de groselha”.

— Uma das coisas que levamos em conta ao comprar um vinho é o rótulo. Se for um Bordeaux, tem que ter cara de Bordeaux. Porém, para regiões não tão tradicionais, muitas vezes uma garrafa divertida atrai o interesse dos consumidores — conta José Grimberg, da loja Bergut.

O mundo fashion também se faz presente nesse universo. Vários estilistas batizam bons vinhos, como a espanhola Amaya Arzuaga e o francês Christian Audigier, ambos com garrafas encontradas no mercado brasileiro. Enquanto a primeira aposta em rótulos que estampam modelos usando vestidos cheios de estilo, o segundo criou uma linha baseada em desenhos inspirados em tatuagens que fazem o maior sucesso. São pelo menos cinco vinhos diferentes: Champanhe Rosé, Champanhe Brut, Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Sauvignon Blanc.

— A vitrine do loja do Leblon é o nosso grande termômetro. Muita gente que não tem hábito de comprar vinhos se sente intimidada a entrar numa loja especializada e acaba recorrendo aos supermercados. O rótulo descontraído e divertido ajuda a quebrar esse gelo. A pessoa entra, pergunta que vinho é aquele, se é bom. Cria uma curiosidade. Os vinhos do Christian Audigier fazem sucesso, especialmente entre os homens, que curtem as estampas que lembram tatuagens e acabam comprando as garrafas, por exemplo, para enfeitar o bar — diz Janine Sad, da Cavist.

Esta reportagem foi escrita para a edição do dia 29/07 da Revista.

Artigo original: O samba do vinho doido: vinícolas apostam em rótulos irreverentes de (autor desconhecido) publicado [dia July 31, 2012 at 11:02PM] em .

Republicado por Eno Gastronomo

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